quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Minha avó deixou em mim


 Há alguns anos ela me deixou e em mim deixou algumas certezas para pensar:

A gente passa a vida inteira a conviver com muita gente e elas sempre têm marcas a nos deixar. As ruins, a gente cura. E as boas, nem precisa de fotos para lembrar: Deixamos tudo em baú de ouro do coração e a memória a guardar.


Durante a infância, foi tempo de convivência na casa e depois no sítio, em cidade pequena no interior da Bahia. Ela, meu avô e muitas histórias para contar.

Lembro que ela usava um ferro movido a carvão para as roupas passar e me impressionava o peso dele e a goma sempre em água, para o branco alvejar.


Na casa havia duas cozinhas e em uma delas, no quintal, um fogão a lenha para cozinhar. Eu gostava de observar o manuseio daquele fogão, com as lenhas no chão e as pesadas panelas de barro, que ela não permitia aproximação, para não me queimar. No quintal também havia  plantas, galinhas, galos, coelho e muitos pintinhos, para o bucólico cenário completar.


Fim de tarde tinha banho de cuia na bacia de metal - para a criançada brincar! O café sempre fresco, em xícaras brancas de porcelana, já vinha adoçado. Em minha memória afetiva, com gratidão, lembro aquele cheiro a me embriagar. E assim aprendi com ela, um bom café apreciar.


Minha avó tinha o hábito das tardes na varanda, solitária ficar. Eram horas a fazer crochê para colchas e panos enfeitar. Um dia eu quis aprender e com paciência e agulha, ela quis ensinar. Mas o cordão teimoso, não saia do lugar. E eu sem habilidade, desisti de tentar.


O tempo não apaga certas marcas na gente. Algumas eu prefiro esquecer ou nem lembrar. Mas  as lembranças que trazem afeto - precisam vivas ficar.


Ela era mulher sofrida, dona de um torto amar. Incompreendida, silenciosa. Não era de muito abraçar. Muitos anos depois, entendi sua sina de mulher e mãe de muitos filhos para criar.


A flor se foi, colhida pelo tempo. Mas em mim, ainda está a florear. Nos vemos em sonhos. Quando sinto aperreio, vou em seu colo me aninhar. Em tristeza não demoro, nem fico a me lamentar.


Na eternidade da vida, nos veremos novamente, para aprender o crochê, para beber um café, para voltar a abraçar!


Liz Midlej
setembro 2020

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