quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quarentena


Um dia. Uma semana. Um mês.
Como medir o tempo interno, o tempo subjetivo, dentro da gente?
Como medir o tempo que não é contabilizado em calendário?
Acordei meio sem saber a hora, sem saber se o dia era quarta - dia de agenda cheia de horários a cumprir - se era sábado, dia de sair para resolver o que não conseguia durante a semana ou se o dia era domingo e eu poderia dormir até mais tarde.
Depois de alguns minutos me dei conta de que não importaria tanto saber. Se o dia fosse quarta, sábado ou outro dia qualquer, uma série de acontecimentos que estariam determinados a seguirem seu fluxo, de repente, teriam que parar. Tudo estava diferente, em lento compasso. O tempo pedia calma, feito pausa de vírgula. A profecia contida numa música de Raul Seixas, outrora absurda, se fantasiou de realidade. A academia estava fechada. O salão também. A costureira, onde costumava ir para um conserto ou outro e ficava horas a escutar casos, agora não estaria mais lá. A escola, as ruas, os shoppings e as praças que outro dia, fervilhavam de pessoas a ir e vir, assistiam ao silêncio reinar absoluto.
E lembrei de quando eu era criança no sítio do meu avô. Havia um grande galinheiro onde as galinhas eram bem cuidadas por ele. Eu costumava ficar horas parada observando as galinhas no seu paciente processo de chocar seus ovos. Meu avô me ensinou que elas botavam um ovo por dia durante duas semanas e não deixavam o ninho nesse período, depois iniciavam o choco que durava três semanas e quase não se levantavam nem para comer. Aqueciam os ovos até que nasciam os pintinhos. Só se mexiam de vez em quando para movimentar os ovos, mudar de posição, para que os embriões se desenvolvessem normalmente.
Ficava a me perguntar como as galinhas aguentavam ficar tanto tempo ali, no mesmo lugar, no seu silêncio de espera.  Tinha certeza de que eu jamais aguentaria. E eis que o tempo me ensina que exata é a matemática, não as minhas certezas. Essas são questionáveis.
Sempre fui muito ativa. Meus dias sempre foram recheados de compromissos, trânsitos, horários, prazos, tarefas.  Descansar só à noite, já exaurida de tanto correr contra o relógio para dar conta da diversidade de ser mãe, mulher, dona de casa e trabalhadora, em cansativa conjuntura.
Mas com a necessidade de ficar em casa, pela adoção de uma prática de responsabilidade com o coletivo, me deparei com aquela minha certeza questionável. Passei a conjugar verbos que não eram percebidos na minha rotina: Perceber, observar, refletir, questionar, parar, conviver,
É certo que o trabalho em casa dobrou. Os cuidados com a higiene foram aprimorados e a convivência diária mais estreita, sem o escape da rua, deixou que surgissem fissuras nessa construção, que antes não eram percebidas. Mas os momentos agradáveis sobressaíram e, de repente, o simples fato de dividir uma pizza em um sábado à noite tornou-se uma festa.
Isso me remeteu à poética do silêncio. Ficando em silêncio, sou capaz de ouvir meus próprios pensamentos, meus defeitos, meus medos. Mas também me possibilitou a chance de ficar acordada, alerta, fazendo acordos comigo mesma de manter a calma para manter a saúde mental. Não se importar tanto com a vaidade. Desligar de notícias e sintonizar comigo mesma. Com a música. Com elementos antes não percebidos.
Aprendi que casa é templo sagrado. Ponto de partida do que sou e ponto de chegada de tudo o que construo lá fora. E que preciso ter cuidado com essa construção para que ela seja morada de boas energias. Aprendi que temos capacidade de adaptação infinita. Ao novo, ao velho, ao que vier. Que podemos tudo. Basta querermos.
E de aprendizado em aprendizado, faço agora como a galinha - paro, diminuo o ritmo, colocando a mim e meu núcleo familiar sob as asas da nossa casa, para que o novo período possa nascer nos encontrando muito mais unidos, fortalecidos e saudáveis. Para continuar.
Con
ti
nuar.
Liz Midlej

Nenhum comentário:

Postar um comentário