quinta-feira, 16 de abril de 2020

Constru...IR




Tempos outros estão em curso. Tenho pensado no tenho feito até aqui. Tempo de refazer rotas. Tenho pensado que talvez não sejam as presenças e ausências materiais que me fazem ser o que sou. Não sou feliz pelo que tenho, nem pelo que me falta. Sou feliz ou não pelo que construí. Pelas escolhas.

Tive vontade de enxergar a minha construção. Sempre fui apaixonada por fotografias e pensei em fabricar um longo e simples varal de corda onde pendurei fotos que ia encontrando. Tarefa árdua nesses tempos digitais. Diversão garantida a cada uma que pendurava. Fui revivendo, contando histórias, desenhando sem muita lógica tudo o que mais precioso me habitava.

Quando terminei, olhei para aquele mosaico meio desengonçado e não vi mais as fotografias. Enxerguei imensos campos floridos, tempestades e dias ensolarados. Janelas abertas e portas fechadas. Pregos e martelos em caixa de ferramenta. Enxerguei ali, dividindo o mesmo espaço, a senhora tristeza de mãos dadas com a dona felicidade; A presença amada fazendo par com a ausência que foi sentida um dia; Vi o olhar que queria falar e se calou, de braços entrelaçados com o sorriso que disse tudo; O erro cometido, coitado! Estava com o olhar cabisbaixo pedindo perdão às juras de amor eterno. Até a decepção estava abraçada com a alegria do refazimento. Meus pedacinhos preciosos de chão que eu queria mostrar ao mundo, mas também esconder de mim mesma.

Por isso percebo que não importa onde estou. O que tenho. O que me falta. O que importa são as minhas histórias que estão penduradas no varal. Ao olhar para cada fotografia, vi experiências nas marcas da pele. Era o tempo que pensava estar engaiolado, mas abriu as asas e voou.
Percebi que não é a imagem que importa. É como me sinto comigo. É como me vejo e como aceito minhas falhas sem culpa e as vitórias sem vaidade. É aquilo que descortina, me dizendo que aprumei o leme e estou na direção certa.

O tempo passou no meu varal. Apagou um monte de bobagem e derrubou castelos de ilusões pelo caminho. Transformou trigo em pão. Passou feito vendaval, desmanchou quebra-cabeça e quando a poeira assentou, não consegui mais encaixar as peças no lugar de antes. Ficou tudo remendado. E tudo bem, também.

Hoje percebo que perdi tempo demais aprendendo a ter medo, construir muros, a querer parecer mais que ser. Agora caminho para fazer as próximas fotografias do meu varal serem mais reais. Menos estática. Mais vibrante. Ser espelho da realidade, sem enfeites, nem filtros. Para que a vida vibre mais que uma simples imagem, fazendo a história valer a pena.

Fazer Valer.
Sem pena.

Liz Midlej

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