sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Retrato de ontem


Foi meio estranho. Arrumando armário, encontrei retrato assim, meio cinza, meio sem brilho. Parei o mundo para olhar aquela fotografia e... 
Não consegui me identificar com a imagem.

Era como olhar livro e autor. Difícil saber que parte dele permanece na obra. Porque depois de pronta o autor não é mais o mesmo. Passou um rio dentro - o rio da vida. E muda tudo.

Talvez ela esperasse mais do futuro, talvez não. E o mundo flutuava no olhar perdido, como a buscar algo que não encontrava ali.

A vida passou feito viagem de trem, apitando a cada chegada e partida na estação. Teve gente que saltou desse trem com ele ainda em movimento, mas teve gente que ficou e persistiu bravamente em sua companhia porque sabe que a viagem tem muitos sacolejos, mas o prazer de ser verdade, de rir e chorar e persistir é bem mais valioso. Faz amor florescer.

Dava para sentir cheiro de lembranças, feito cheiro de café fresco. Ninguém saberá de sonhos não vividos, de paixões invioláveis, do querer voar, de vitórias pequeninas e secretas. Ninguém. 

Mas o tempo, grande aliado, mostrou que a viagem tem sido memorável. Cheio de rugas e quereres. Cheio de amor fundo. Cheio de paz. De crescimento interior.
E ela sorri. Agradece pelas pessoas rasas que se foram. E pelas pessoas preciosas que quiseram ficar. Por ela passaram e resolveram ficar. Pelo menos.

E ela sorri.
Só ri.

Liz Midlej

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