domingo, 14 de agosto de 2016

Dia de Painho



Hoje, o dia está com gosto de memória. Dia de Pai. Dia de 50% da nossa essência. E pra mim, falar de pai não é tarefa fácil. Pior fica quando se tem um pai feito o meu. Pai presente que em si, já é um presente.

É que poucas coisas tem em mim capacidade de emocionar mais que essa parte da história. Feito emoção que transborda e deságua em queda funda e marca que nem ferro em gado.

Já tem tempo, mas tá lá na memória. Era eu pequena na idade. Família de 04 filhos, todos com idade coladinha uma na outra. Quatro pequenos pestinhas. Cada um de jeitos e quereres diferente onde brincadeiras e bagunça fazia morada. E tudo era muito. Tudo superlativo. Multiplicado por quatro. Eu, filha primeira, mais exigida, tinha que ser exemplo (e nem cheguei perto de ser protótipo de nada). Mas ficaram muitas histórias pra contar.

Lembro bem de farra de álbuns de figurinhas. Ele chegava do trabalho com milhares de pacotinhos, sentava no chão e partilhava com cada um feito achado de tesouro. Ajudava a colar e se divertia com as trocas de figurinhas repetidas.

Lembro de casinha de bonecas de madeira no quintal de casa, coisa pra fazer vontade de filhas. Festas de São João, de fogueira e de balão. Dias de felicidade no sítio do meu avô. Sentado no chão da varanda, trazia mala cheia de fogos e dividia tudo por quatro - chuvinhas, traques, bombinhas. Os fogos de adulto, fazia ele questão de soltar e todo mundo em volta da fogueira assistia encantado. Luiz Gonzaga na vitrola, canjica na mesa e a criançada em volta, na maior alegria.

Lembro que ele gostava (e ainda gosta!) de casa cheia, de café com requeijão frito (tinha que ter a casquinha por cima), de macarrão com molho feito por mainha, de carne do sol com pirão de leite, de música de Luiz Gonzaga, de história de sertanejo e livros, muitos livros.

Alma alegre, contador de “causos”, muito amado e respeitado, adorava receber amigos em casa. Coração grande, ajudar sempre foi sua palavra-mestra. Pinta de durão, mas derretia feito manteiga quando ganhava um cafuné. Senhor das letras, referência de cultura para nós.

Ontem, quatro filhos. Hoje quatro filhos, três genros, uma nora e sete netos. O superlativo tornou-se mais.

Hoje adultos, bailamos em ritmos que a vida compôs. Tons e notas que foram sendo criadas e remodeladas. Achamos ritmo, respeitamos o tempo, criamos e reforçamos laços e parcerias. Coisa funda, os laços de amor. Os instantes vividos. O apoio, o aconchego na hora certa. O incentivo, as críticas, decepções e conquistas. O amor doado e recebido. Lembrança do que foi. Saudade de futuro. Uma orquestra de sintonia em pai maior.

E em essência, ser pai é mais que contribuir com célula matriz. É estar aqui, mesmo sem estar. E com ele aprendi que nada substitui presença. Nada. E esse é nosso bem mais valioso. E não importa presença física. Presença tem que ser do toque, de segurança, de amor. Feito voz em ligação de telefone – não está aqui, mas se faz juntinho de nós.

Ser pai é ser ele. É ser painho que chega sem jeito, abraça e pronto. Já disse tudo. Que dá bronca e nem lembra mais que o tempo passou: "Filha não obedece! Teimosa!" Filha tem mais de 40 anos e continua a teimar. Pai é assim: Amor em flor que não para de brotar. Um cadim de homem, um pedacinho de pai, um tantão de avô. E tudo com amor e cuidado.

E Hoje é dia de pai. De painho. De Vô. Mais um dia para dizer que amo e que meu desejo é ser filha, proteger e fazer mais suave as durezas da vida. Porque as vezes o papel inverte e pai precisa de carinho. E daqui de longe, pode saber: Conte sempre com meu cafuné.
Feliz dia de pai-avô.

|Liz Midlej|

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