quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Orgulho Mata


Um amigo acaba de morrer em mim.
Foi morrendo assim, devagarzinho, feito vento meliante que espreita madrugada. Quando percebi já não respirava mais. Não havia percebido que a amizade estava doente. E quando a amizade fica doente, se você não tomar semancol, humildol ou desculpol, o vírus da mágoa se alastra pelo corpo todo. A mágoa é como lepra. Primeiro apodrece a palavra, o brilho nos olhos e depois o respeito. É quando você diz “olá” querendo dizer “adeus”.

O amigo quando fina não vai para o céu, fica vagando feito alma penada no inferno da lembrança. O finado amigo é um espírito que fala através de outras pessoas e, ainda que ele grite, você já não escuta mais. Um amigo falece por vários motivos, desde falta de açúcar nos olhos até a fraqueza no abraço. Mas o pior de tudo é o enfarto da admiração. A admiração pelo amigo é o sangue que bombeia a amizade. Sem esses glóbulos brancos, negros e amarelos o amor acaba.  E se você não ama mais teu amigo... jaz.

Amigo a gente não divide: Se ele é menos a gente multiplica, mas quando ele morre a gente já nem conta mais. O amigo quando cessa é o como se o passado cometesse suicídio com um tiro na saudade, ou uma corda pendurada na lembrança. Isso quando você mesmo não o mata, atirando na testa um desprezo de pedregulho. Quando a amizade começa a tossir... É bom medir a pressão.

Meu amigo está morto, na autópsia consta que foi envenenamento: cianureto de orgulho. O Funeral foi agora há pouco, sem flores nem lágrimas no meu coração. O enterro segue sem alarde em respeito aos familiares.

Sérgio Vaz
Poeta brasileiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário