quinta-feira, 3 de setembro de 2015


Quem é o menino na areia ?

O menino na areia não é sírio.
O menino na areia não é refugiado.
O menino na areia não respira.

E não respiram todos que viraram o rosto para o rosto virado na areia. 

Ele, o menino na areia, é o arame farpado na fronteira, é o lorde de peruca no parlamento, é o trem sem janelas na estação fechada de todos os países. O menino na areia é alemão, é húngaro, é inglês. E também é argentino, brasileiro e judeu. 

O menino na areia vive (e morre) na periferia de sua atenção, embaixo do tapete, no rodapé do jornal que não existe mais. O menino na areia é a especulação, a taxa de câmbio, o spread bancário e o socialista de botequim. O menino na areia é o menino deitado, de rosto virado para os cegos do outro lado da areia. 

Cegos que, ontem, finalmente, viram o menino na areia.

E viram no livro dos rostos, que não estavam virados, mas ocupados, entre festas na areia, carros importados e guerrilhas ideológicas.

Ontem, todos nós vimos o menino na areia.

Mas o rosto, virado na areia, não era o do menino na areia.

- Olhe de novo, menino na areia.

Felipe Pena
Em referência ao menino Aylan Kurdi, de 3 anos que morreu em um naufrágio quando tentava cruzar o mar Egeu para chegar à Grécia. 

Um comentário:

  1. O menino Aylan Kurdi foi mais um assassinado pela intolerância daqueles que assassinaram,também, 6 milhões na segunda guerra mundial e estão acabando com o continente africano.

    Foram eles!

    Um abração carioca.

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