quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pai, não te amo como antigamente

Antecipando o dia dos pais, publico um texto que não foi escrito por mim, mas expressa exatamente meu sentimento. Pai é um ser muito especial na vida da gente. E o maior presente que posso dar é expressar o amor todos os dias do ano, mesmo nas ocasiões em que discordo das suas opiniões e atitudes. É que hoje não o amo mais como antigamente. Hoje posso vê-lo com olhar mais real e dizer que, conhecendo-o melhor, amo-o muito mais que antigamente!

Pai,

Há muitos anos que não caibo mais no seu colo. Hoje meu peso já é demais para você me carregar nos seus ombros. E meus anos já não permitem certos mimos de antigamente. Mas me flagro, às vezes, desejando que você ainda pudesse administrar minha vida, escolhendo os caminhos mais seguros para eu caminhar. Caminhada essa, livre de todo medo, por saber que você me observava a cada passo, tentando impedir meus tombos e tropeços.

Os anos passaram. E a vida não perdoa atrasos.
A cada dia, por mais que nenhum de nós tivesse pedido, menos controle você passou a ter sobre a minha vida. Não pôde escolher meus empregos como escolhia minhas escolas. Não pôde vetar aquela última dose de vodka como vetava o chocolate antes do almoço. Não pôde me ajudar com aquela baliza na vaga pequena como me ajudava com os pedais da bicicleta. Não pôde evitar a queda do meu celular na privada como evitou vasos quebrados por causa da bola dentro de casa.

E tudo aquilo que você fazia, e que um dia me pareceu infernal: horários estipulados para voltar para casa na noite de sábado, olhares tortos para amigos que não te pareciam boa coisa, reclamações por tempo demais no telefone, controle do dinheiro que eu tentava gastar, hoje faria todo sentido. Seria tão bom se hoje em dia você pudesse me garantir mais horas de sono, amigos mais confiáveis, uma conta de celular mais barata ou uma fatura de cartão de crédito um pouco menos imbecil…

Mas agora é comigo, pai.
E seria bom voltar ao tempo em que você me parecia imortal. Tempo em que era você quem se preocupava com a minha saúde e não eu com a sua. Tempo em que você tentava evitar meu resfriado ou ficava preocupado com meus 39 graus de febre. Mas hoje sou eu que cobro seus exames de sangue, seus exercícios físicos e tento te fazer ver que amendoim, álcool e carne vermelha não garantem uma velhice boa a ninguém.

Pois é, pai. No fundo, todo mundo já sabia que ia ser assim. Mas às vezes essa síndrome de Peter Pan nos invade e a vontade de ficar debaixo de suas asas é quase irresistível. 
Mas a vida chama. Então me levanto, lavo o rosto, vou trabalhar. Porque você me levou no colo, me carregou nos ombros, mas também me ensinou a caminhar com minhas próprias pernas. E se hoje estou na estrada, trilhando caminhos bonitos, você bem sabe que isso é obra sua.

[...] E hoje eu posso te olhar durante o almoço. Não com o encantamento que tinha aos 6 anos… Porque aos 6 anos era aquele amor cego das crianças. Já hoje, tenho esse olhar cirúrgico, avalio suas atitudes, aponto seus erros, reclamo dos seus defeitos. A verdade, pai, é que eu não te amo como antigamente. Eu te amo ainda mais.

Te amo mais porque te vejo de verdade, com tudo de bom e de ruim, consciente de que você é um ser falho, como todos os outros, mas que, mesmo assim, consegue se manter como meu porto seguro, meu norte, aquele que me construiu, me guiou e ainda me guia, me acode nas quedas que não pode evitar, me ama com todos meus defeitos e é quem dá vida à ideia de “amor incondicional”.

Hoje você já não é tudo aquilo que foi para mim um dia.
Porque agora você é tudo aquilo que é para mim hoje. E hoje é amor dobrado, é amor firme e deliberado, desse filho, adulto e crítico, com um sentimento cada vez mais consolidado. 

E que esse não seja um texto (nem um domingo) de dor para os que não têm mais seus pais por perto, mas que seja a confirmação de que a emoção que se sente é a certeza do amor por eles plantado, que se colhe pela vida toda. E quando refiro-me a pai, quero me referir não apenas ao pai de sangue, mas a quem exerce o papel da figura paterna: Um pai adotivo, um padrasto, um irmão, um avô, um tio, ou ainda aquelas incríveis mães ambivalentes.

Ruth Manus
Fonte: O Estadão

2 comentários:

  1. Quantas saudades do meu velho pai, se vivo estivesse, faria hoje 09/07/2016, 117 anos. Com ele aprendi tudo de bom. Foi pai, companheiro e amigo inseparável. Muitas saudades Sr.Antonio Lemos Costa. Que estejas em PAZ meu amigo.

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    1. Prezado Dila, pai é insubstituível, inesquecível, indefinível de tão especial. Que bom que você tem boas lembranças! É laço que não se desfaz. É certeza de amor construído e eternizado. Parabéns antecipado pelo seu dia e pelo seu pai-amigo. :)

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