domingo, 24 de agosto de 2014

O vento como o tempo...

Reprodução do quadro "A persistência da memória" de Salvador Dali. 1931

Ela achou que ia ter mais tempo, mas o tempo está passando como o vento – constante e silencioso – e ela não encontra mais tempo para nada. Nem para cuidar de si mesma.

Ela precisa se desligar do tempo cronológico ou Chronos, que corre com os ponteiros do relógio, e também do calendário gregoriano, cujas folhas se despregam mês a mês, de janeiro a dezembro. E não é que já estamos no fim de agosto, quase setembro de 2014?

Ela achou que ia encontrar outra conexão com o tempo, mas dentro dela o tempo não passa. Mas é só olhar no espelho, nas fotos e nos olhares do outro que insistem em chamá-la de senhora, para ver que o tempo deixou marcas no rosto, nos braços, nas pernas. Que o tempo enlouqueceu, escreveu a sua história rápido demais. Deixou um manto de cicatrizes na alma.

Ela precisa encontrar o tempo Kairós, que é o das batidas do coração e parar de ter pressa de resolver tudo. De correr de um lado para o outro, como se tivesse dando voltas em torno de si mesma. Ela precisa se conectar com a Lua que rege o seu signo de Câncer, para saber que não pode ficar só na fase minguante. 

[...] Mas ela queria ter mais tempo para cuidar de si mesma. Mas não sabe como. Ela não dá colo para si mesma, mas bem que queria.Todos os dias, ela se pergunta: “O que é cuidar de si mesma?”, mas não sabe a resposta. Será que é parar de fumar, de tomar vinho? Será que é fazer Pilates, musculação, exercícios aeróbicos e andar pela manhã? Será que é não comer carne ou seguir os manuais de viver bem? Será que ela tem que fazer botox, cirurgia plástica no corpo e na alma? Será que assim ela vai morrer jovem e com saúde plena? Será que ela não vai ter tempo e sabedoria para envelhecer como Amélia, sua mãe, que chegou soberana aos 91 anos?

É preciso dizer que ela não tem mais tempo para compromissos inúteis. Nem paciência para conversas vãs, que não levam a lugar nenhum. É preciso ressaltar que ela não tem mais amigos por conveniência. Que só aceita convites que lhe dão prazer. Nem tempo de amizades por interesse. O tempo revela os verdadeiros amigos e seleciona os programas. O tempo escolhe os amores, que devem ser de duas pessoas inteiras que não se fundem um no outro. 

Amor agora é companhia, dessas que fazem a gente rir, se divertir, se fartar e se lambuzar de alegria. O tempo é assim: faz cirurgias no coração que não se compromete mais por paixão. O tempo faz escolhas inevitáveis, filtra tudo.

Mas ela ainda quer tempo para aprender o que não teve tempo: a alquimia dos alimentos na cozinha. Por falta de tempo, também não aprendeu a cozinhar nem a bordar nem a tecer, porque estava envolvida na missão de ser profissional, de vencer no mercado de trabalho. 

Ela precisa de mais tempo para plantar a muda de Ipê que ganhou e que está pedindo chão, no vaso da janela. De cuidar, pelo menos, do seu jardim secreto. Será que ela vai ter tempo de desvencilhar-se de todos os galhos secos que ficaram grudados na pele? Será que ela vai conseguir terminar de degustar esse vinho português com nome de “Pátria”? Ou será que ela prefere hoje viajar para a região de Alentejo, em Portugal, onde é feito esse vinho?

Será que alguém vai ter tempo de ler esse texto? Ou ela perdeu a noção do tempo? Pois, neste momento, até o texto tem que ficar de molho para ser apurado, amadurecer – e só depois ser degustado, gota por gota, taça por taça.

|Déa Januzzi|
Fonte: Blog 50 e mais

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Dizer que me identifiquei com esse texto é redundante. Maravilhoso!

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