domingo, 18 de maio de 2014

Me exponho, logo existo


Invejo quem não tem celular. Existem e são admiráveis. São poucos. Estão em extinção. Quando precisam falar com alguém, ligam de um fixo. Admiro pessoas que ligam do fixo. São econômicas. Sem contar que a ligação é clara e não cai.

Invejo quem não tem carro, nem carta ou carteira de motorista. Vai a lugares a pé, usa "condução" ou bicicleta, e volta de carona ou racha um táxi. Nunca soprou num bafômetro. Não estão em extinção. Negam a revolução industrial. São pessoas mais econômicas e descomplicadas. Talvez por isso, mais felizes.

E invejo quem não está no Face, Twitter, Insta, Linkedin, G+, WhatsApp, em lugar nenhum: o que não existe virtualmente, nunca "teve" Orkut nem sabe o que é o extinto MSN. Caminham, olham o nada ou algo sem a urgência de um registro fotográfico ou um comentário, uma curtida, uma postagem. Mandam cartas e cartões-postais escritos à mão.

Sim, existe gente que não se comunica, nem curte, nem posta. Não critica, nem milita, nem lamenta a morte de um ídolo para amigos, conhecidos, seguidores desconhecidos e amigos de amigos. Não se indigna, não se revolta, não se mostra. Não mostra seus gatos, seus pratos, sua mãe no dia delas. Nem relata suas viagens. Não pensa, não expõe, não se exibe para centenas ou milhares de pessoas. Logo, não existe? Nem o pôr do sol retrata. Nem a lua tem o seu momento. O que dirá de um nascer do sol? Existe?

Pensar que há dez anos não existiam redes sociais. Há 20, a internet não era regulamentada, nem existia o consórcio W3C (World Wide Web Consortium). Há 30, não tinha celular nem computador pessoal no Brasil. A maioria não tinha telefone nem máquina fotográfica.

[...] Éramos mais discretos. Menos ansiosos. Não precisávamos da aprovação alheia. Não precisávamos chamar tanta atenção, nem criar a ilusão de que somos melhores do que somos. Somente éramos.

Marcelo Rubens Paiva
Fonte: Estadão/Cultura
Leia texto completo aqui

Nenhum comentário:

Postar um comentário