domingo, 25 de maio de 2014

Amado Jorge


Sinto muitas saudades de meus pais. Tantas. Aperta o coração, dá vontade de chorar. Não se enganem pensando que falo dos escritores Zélia e Jorge Amado, falo de pai e mãe, gente de carne e osso e, sobretudo, muito coração.

Já se passaram quase 14 anos sem meu pai. Na verdado mais, pois os últimos 3 anos de vida dele foram de uma presença estranha, muito doente e triste. Era o meu pai ao oposto. Dele apenas sobrava um beijo na mão e um pedido:
-- Coça a minha cabeça.

Ele sempre gostou de uma coceirinha na sua juba de leão, no seu corpo peludo de urso. Ainda lembro quando João levou Dorinha pela primeira vez na casa do Rio Vermelho. Juca queria apresentar sua mulher a papai, a definitiva! Mamãe abraçou papai e disse:
-- Jó, essa é Dôra, mulher de João Jorge. Veja que encanto de pessoa!
Papai a olhou com aqueles olhinhos de quem não entende bem as coisas. Fixou o olhar, entendeu tudo, e disse:
-- Coça aqui minha cabeça, minha filha!
Ela estava aceita e abençoada.

Um dia, quando ele, muito mal, já não dizia palavra há ano e meio, passei a tarde atrás de meias, pois seus pés estavam gelados. Trouxe, mamãe colocou, ele deixou. Papai, como eu, tinha horror de pés cobertos, meias e cobertores. Ao vê-lo assim calçado, mais uma vez desconheci meu pai naquele homem na minha frente. Fiquei muito triste e nervosa. Então resolvi ir a minha casa tomar um banho, me acalmar e voltar mais tarde para jantar. Vou ali e volto já.

Descendo o jardim no rumo da garagem, para pegar meu carro, tropecei numas raízes de árvore e tomei um tombo fenomenal. Estava escuro, mas no breu aconteceu a magia. Carybé, que fora embora da vida antes de papai, me apareceu, muito severo, e disse:
-- Volta já para casa, sinhå burra. Vai atender seu pai que está precisando de você.

Levantei, meu joelho sangrava muito. Peguei o rumo de volta à casa. Encontrei mamãe desesperada, papai estava ficando arroxeado, sem forças. Um vizinho veio ajudar a tirá-lo pela porta. Fui buscar meu carro e corri para o Hospital Aliança, bem ali na vizinhança. Eu ia dizendo a papai, a meu lado, que aguentasse, que já estávamos chegando. Não deu tempo. Só soube que ele entrou morto no hospital tempos depois.

Tive milhões de coisas a resolver em seguida, a ausência dele foi sendo ocupada pela presença muito constante de mamãe. A verdade é que ele só se despediu sete anos depois, quando ela se foi.
Mamãe queria viver, mesmo sem a presença viva do seu amor. Ela chamou João Jorge e eu para dizer isso, e por anos nos deu provas de amor a vida. Era uma retada ... Já disse isso antes, não foi?

Quando teve o primeiro edema pulmonar, fomos chamados pelos médicos que a desenganaram. Não conheciam dona Zélia... Uma semana depois, fora da UTI, é claro, ela estava no altar da Igreja da Vitória casando o neto Jonga com sua linda Dayseane. Alegre, feliz, elegante, uma lindeza. 

Foram três edemas pulmonares, cadeira de rodas, oxigênio 24 horas por dia. Ela inteira, escrevendo, indo votar na eleições, fazendo a domingueira com a família e os amigos. Até que meu irmão Luiz Carlos, seu primogênito, foi levado por um câncer devastador.
-- Não é direito filho morrer antes da mãe, ela dizia todo o tempo.

Daí foi rápido, poucos meses de um triste calvário. Quando foi embora, levou com ela meu pai. De repente me olhei sozinha em casa e tive o triste sentimento da orfandade. Total solidão.

O tempo é o melhor remédio, todos dizem, e é uma verdade, relativa, mas é. A gente volta à vida, readapta seu dia-dia, sonha, chora, ri, escreve sobre eles para matar as saudades. Mas tem sempre um dia em que o peito aperta de uma maneira tão sem jeito, que a gente se sente vazio, sem graça, precisando desabafar.

Paloma Jorge Amado
Filha do escritor Jorge Amado e da escritora Zélia Gattai
Fonte: Facebook

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