terça-feira, 5 de novembro de 2013

As curvas de Salvador

Curvas da Avenida Contorno, debruçada sobre a Baía de Todos os Santos
e amparada pela Gamboa
Outro dia um amigo meu me disse que nenhuma outra cidade no Brasil tinha tanta curva quanto Salvador. Exageros à parte, a afirmação me fez refletir, e eu cheguei à conclusão de que realmente, para o bem e para o mal, nossa cidade não é uma terra de linhas retas. 

Para o mal, porque trocando em miúdos, isso traduz um quê da falta de organização que parece ter ditado a evolução urbana em Salvador. Roda-se muito para sair de um lugar e chegar a outro. Bairros vizinhos podem ser mais distantes do que se imagina. E aquele prédio da Tancredo Neves que você está vendo ali, quase ao toque da sua mão na Paulo VI, na verdade está cercado de ruas sem saída (uma prática comum por aqui), e precisará de uma epopeia homérica para ser alcançado, o que irá exigir que o herói percorra toda a Alameda das Espatódeas, vire aqui, vire ali, dê uma pirueta, um duplo-twist-carpado, e que ainda reze para não encontrar engarrafamento.

[...] Ora, a capital da Bahia (ou melhor dizendo, do Brasil colonial) foi planejada para ser uma fortaleza, e facilidade nos acessos e praticidade nos deslocamentos em Salvador era o que os portugueses menos desejavam (lógico, o que é fácil pra mim também é fácil para o meu inimigo). Assim, nada mais coerente que, quatrocentos anos depois de se instalar na colina da Cidade Alta, e se ramificar para as áreas mais afastadas, Salvador mantivesse essa lógica de crescimento. Olhos pessimistas enxergariam isso apenas nos moldes do parágrafo anterior, e veriam desordem. Olhos otimistas, por outro lado, extrairiam beleza. Beleza sim, porque não?

[...] E justamente em decorrência dessa sua capacidade ímpar de não tentar argumentar com a natureza, é que Salvador nos presenteou com suas curvas de tirar o fôlego. No litoral, por exemplo – recortado e segmentado como em poucas cidades brasileiras -, multiplicam-se ruas e avenidas que de tão surpreendentes, já deveriam ter sido consideradas pontos turísticos. Quem não se emociona com a curva da Avenida Oceânica que sai de Ondina, entra na Barra, passa pelo Cristo, e que descortina aquela visão de cinema do Farol, a imponente sentinela da Baía e do Atlântico? Qual turista não fica embasbacado quando o Vale do Canela passa por baixo do Campo Grande, e depois de uma curvinha de nada, samba na cara do mundo com aquela vista arrebatadora da Baía de Todos os Santos?

A Praia da Paciência, no Rio Vermelho, em suas linhas sinuosas vista por outro ângulo
Que soteropolitano não se enche de orgulho ao chegar no Rio Vermelho, e depois da Praia da Paciência (e claro, depois de uma curva), avistar quase metade do bairro na sua frente? Quem é que não gosta de descer a Ladeira da Barra, e por uma fração de um minuto que seja, ser abençoado por aquele trecho do Yacht Club (o único ponto da via que não esconde o mar, diga-se de passagem)?

Impossível não sentir vontade de se demorar por alguns minutos (ou encostar o carro, no caso dos motorizados) e admirar a dimensão daquela imagem que se estende do Largo da Mariquita até o Farol da Barra. Um daqueles raríssimos momentos em Salvador no qual você para, olha, e pensa que tudo se encaixa e não há nada fora de lugar.

A reação típica provocada pelas curvas da cidade.

Iuri Barreto, autor do Grupo "Guia de sobrevivência do Soteropobretano", foi convidado para postar sobre um motivo pelo qual ama Salvador, no Blog "365 motivos para amar Salvador". Leia o texto na íntegra Aqui

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