terça-feira, 20 de agosto de 2013

Infiéis da própria vida


Nossa vida está perdendo consistência. Espessura. Segurança. Estamos mais sujeitos a mudar do que a insistir. Estamos mais sujeitos a nos separar do que a permanecer casados. Estamos mais sujeitos a ir embora do que a voltar para casa.

Se algo incomoda, se algo atrapalha, o botão Desapego é rapidamente acionado. Como não pretendemos sofrer, caminhamos para a total insensibilidade. Deixa-se o começo por outro começo. Não há mais meio ou fim, o que vigora é a desistência. Substituímos a responsabilidade pela ideia de liberdade.

Experimentar é a lei – fazer patrimônio e futuro não tem sentido. Anteriormente, nos dedicávamos à família. Agora, nossa obsessão é o prazer pessoal. Danem-se as complicações. A aparente leveza se assemelha a desenraizamento. Buscamos chegar logo, não olhar a paisagem. A velocidade é o que nos provoca. Buscamos desembarcar logo num novo destino, não nos vale a estrada. A viagem deve ser curta e indolor,  jamais reflexiva e longa.

Ter um romance longo é quase uma insanidade, assim como ler um livro de 400 páginas ou assistir a um filme de três horas. Não oferecemos chance para permanência, para a rotina, para a confirmação das expectativas. Repare. O mundo virou sábio de repente: todos têm soluções, ninguém mais convive com seus problemas...

Fabrício Carpinejar
Crônica publicada no Jornal Zero hora

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