segunda-feira, 13 de maio de 2013

O tempo de uma fotografia


Não era nem ontem, e nós éramos um rostinho inocente posando para um retrato escolar. Olhinhos apertados, espertos, ávidos por ver a vida crescer. Crescemos nós. Já no mundo adulto, aquela foto da escola perdeu-se em alguma caixa parda que guarda fotografias do tempo em que elas eram reveladas. Eram aguardadas no suspense de seu conteúdo. Havia prazer em esperar.

Fala-se disso:
- As fotos ficaram boas?
- Vem aqui em casa pra ver!. 
Diálogos dos século passado. O mundo adulto, hoje, é cheio de pressa. Nem bem viveu-se algo, e esse algo já foi postado em alguma rede. Desfruta de uns segundos de visibilidade, para depois perder-se, em memórias cibernéticas.

Será que as crianças de hoje ainda tiram fotos do tipo grupinho escolar? Todas as carinhas reunidas, professora do lado e um fotógrafo gorducho mandando fazer xis. Não há muito tempo para esperas e aguardos. Hoje, é tudo para hoje. Será que no meio de tanta aceleração, dá tempo de se perguntar onde estarão aqueles meninos e meninas do nosso retrato escolar? Caminhos que nos engolem enquanto tentamos acrescentar alguns minutos à mais nas nossas horas corridas, e lá se foram os nossos primeiros melhores amigos.

A que se presta esta nostalgia? Serventia prática, nenhuma! Pensamentos miúdos não se prestam. Eles prezam. Prezam alguma coisa de valor que vai se perdendo pra não se perder tempo, e que podia ‘não’.

Podia-se não perder contato com as pessoas queridas. Podia-se responder os e-mails com muito mais palavras. Podia-se telefonar ao invés de encurtar tudo por SMS.     Podia-se ganhar da preguiça e chamar amigos pra um jantarzinho. Podia-se ultrapassar o tédio e organizar uma viagem. Podia-se fazer mais visitas, pra se ver ao vivo e à cores. Podia-se escrever uma carta, pra lembrar da própria caligrafia. 

Podia-se largar mão de artificialidades e conversar com mais vontade. Podia-se deixar pra lá a vaidade, e expor os sentimentos com mais verdade. Podia-se deixar o orgulho de lado e procurar reacender os afetos congelados. Podia-se dar um tempo das relações, e sair por aí, abraçando os outros, beijando os outros, olhando  os olhos dos outros. Podia-se redescobrir aquele amigo, daquele tempo, e surpreender...

Em meio à tantas metas e prazos, a gente sabe que é na companhia do outro, na intenção e na atenção dedicados à amizade e ao encontro que a vida faz sentido. Sem perder tempo com as miudezas que importam, perdemo-nos todos. Perdidos e acelerados, periga que um dia, a gente não se ache mais.

‘Ultimamente têm passado muitos anos.’

Rubem Braga

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