quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos" (João Ubaldo)


[...] Que mais me deu a Bahia, que mais nos deu, com que outras graças nos rodeou e nos criou? Bem mais fácil seria enumerar o que ela não nos deu. 

Quanto a mim, é impossível empreender esse inventário, sou devedor, não sou credor de nada. Não há como fazer a lista de tudo o que plasmou minha maneira de ver, sentir e expressar o mundo, de gente de todas as extrações que me ensinou alguma coisa e me tornou o que sou. 

Não é ufanismo bairrista dizer que a Bahia é um privilégio para quem nasceu nela, ou por ela foi adotado. Em nenhum outro país do mundo se deu a mistura de gente que sempre foi comum no Brasil e continua a ser. E, no Brasil, não há lugar onde essa mistura de corpos e mentes seja tão universalizada quanto na Bahia, onde faça parte tão entranhada da paisagem humana. Como se aqui se realizasse um intento do Criador, passamos por cima de todas as barreiras que foram criadas e ainda são criadas contra a integração da Humanidade. 

As culturas de origem africana trazidas para cá, em todas as suas manifestações, não morreram aqui, mas se transformaram e se revivificaram, e hoje, apesar de às vezes não percebermos bem essa realidade, espantosa em qualquer outro país, são um exemplo para o mundo. Aqui se dissolveram, numa mistura esplendorosa e fecunda, original e única, raças, crenças, costumes, falas, hábitos, gostos e aparências — é difícil avaliar como isso é precioso e raro, forte e delicado ao mesmo tempo. 

Basta trazer à mente a História, pregressa e presente, de nossa espécie, para verificar como dificilmente, ou nunca, esse fenômeno acontece. Mas acontece aqui e assim se define nossa identidade. Somos os detentores — e temos o dever de também ser os guardiães — dessa magnífica singularidade. 

Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos.

João Ubaldo Ribeiro, em seu discurso de posse na Academia de Letras da Bahia onde ocupa a cadeira n° 34.
Fonte: O Purgatório

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