domingo, 11 de novembro de 2012

Forasteiro das próprias terras


Gostava mais quando tu eras feito de mata, de rio, de chuva, de temporal, de clareira. Eras o próprio relâmpago.  Eras trovão rugindo entre as estrelas no Pantanal.

Gostava mais quando teu canto era de força, de guerra, de plantio, de colheita, de crença.  E te igualavas aos bichos da floresta.
Gostava mais quando tua fogueira te guardava, te aquecia, te alimentava, te iluminava. E a fumaça ia de encontro aos teus espíritos.

Gostava mais quando teu cocar de penas te dava autoridade e aos meus olhos era um arco íris. O mais belo desenhado na terra.
Gostava mais quando teu corpo nu era pintado de coragem, da onça, do bugio, do lobo guará, da anta, do jacaré, da ariranha, da sucuri.
Quando teus pés descalços abriam caminhos sem destruir a natureza.

Gostava mais, quando eras Atikum, Terena, Bororo, Cinta Larga, Guarani, Guató, Kadiweu, Kinikinawa, Ofaié, Kaiowa, Xavante, Xiquitano, Guarani  Kaiowá.
Gostava mais quando não sabias do Pai nosso, quando não sabias de mim, das minhas crenças, minhas doenças, do meu quintal cercado de ambição.

Não serás mais curumim, cavaleiro, canoeiro, guerreiro. Por que não te deixaram assim? Fizeram-te forasteiro em suas matas. 
Sem arco, sem flecha, sem zarabatana, sem oca, sem taba, sem tribo, sem etnia. 
Sem chão. Cobriram teu corpo com trapos sintéticos, prenderam teus pés com sapatos.

Deram um nó em tua língua.
E agora cavam buracos para esconder a tua história.


Marileide Antunes
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