domingo, 2 de setembro de 2012

O Condicionado

"Para escrever tenho que enfrentar a sonolência, a caneta que falha e a chuva."
(Raimundo, O Condicionado)

Raimundo Arruda Sobrinho nasceu na zona rural de Goiás. Saiu de casa para estudar em São Paulo nos anos 60. Trabalhava como jardineiro mas, a certa altura, seu salário ficou menor que o aluguel que pagava pelo quartinho e acabou tornando-se morador de rua na década de 80. Indagado por que ali, no meio da avenida, respondeu: "Uma via vai, outra vem. Assim fico no meio, entre a teoria e a prática. Vivo a diferença." 

A sua sorte começou a mudar quando, em maio de 2011, ele conheceu Shalla Monteiro, 19 anos, uma moradora do bairro onde Raimundo vivia. Shalla diz que se aproximou de Raimundo por ter se encantado com seus escritos. Raimundo é um poeta (hábito não comum entre moradores de rua) e passa o tempo escrevendo e distribuindo suas "mini-páginas" (poesias em pedacinhos de papel, como ele dizia) a quem o ajudava.

Após um ano visitando, ajudando e conversando com Raimundo na rua onde ele vivia, Shalla observou que muitas pessoas passavam, falavam com ele, faziam doações e era querido por muita gente. Só que Raimundo doava a maioria das coisas que ganhava aos outros moradores de rua. Dizia que não precisava de nada daquilo. Comia pouco e usava caneta e papel para o que mais lhe interessava: escrever. Escrevia o tempo todo, mesmo não havendo ninguém pedindo mensagens. Parecia não se incomodar com o trânsito ou com alguém que parava para olhá-lo.

Raimundo escrevia quando havia luz natural, com o auxílio de uma régua de 30cm  e uma moldura de 11cm por 16cm para manter as margens e as linhas retas no papel não pautado. Utilizava o pseudônimo "O Condicionado" para assinar suas poesias e cada exemplar doado era numerado e datado com o ano de forma inusitada: 2000 era  escrito como 1999+1.

Shalla resolveu criar um perfil para Raimundo no Facebook com o intuito inicial de divulgar sua obra, que era uma vontade antiga dele, além de fazer com que outras pessoas o conhecessem. “Criei o perfil como uma forma de dar reconhecimento e afeto para uma pessoa com a qual eu estava muito envolvida. Eu nunca imaginei que encontraria a família pelo Facebook, mas eu sabia que haveria alguma repercussão. Durante o tempo que convivi com ele, notei a grande popularidade de Raimundo, que sempre era cumprimentado por moradores, policiais e inclusive crianças”, diz Shalla.

Não demorou para que a família de Raimundo o descobrisse através da rede social e, a partir daí, os esforços foram direcionados para esse reencontro. Em menos de 3 semanas a família foi a São Paulo para começar a aproximação com Raimundo, visto que ele estava confuso e relutante. Dizia não querer "dar trabalho a ninguém". Foi levado a cuidados médicos e a adaptação à nova vida aconteceu aos poucos através de ajuda de assistência psicossocial.

Hoje aos 74 anos, 30 deles morando nas ruas, Raimundo está de volta ao convívio familiar em Goiânia. Está "repaginado" graças à ajuda de uma completa desconhecida, que resolveu movimentar-se e fazer algo  para ajudar alguém.

Raimundo Arruda e Shalla Monteiro após retorno a Goiânia

Palmas para Shalla por essa iniciativa! Se cada um de nós saísse de nossas pequenas e pobres caixinhas egoístas e abraçasse um "Raimundo" ao invés de simplesmente culpar o 'sistema', não haveria tanta desigualdade social no mundo.

Por Liz Midlej*

Outras Frases de Raimundo: 

"Não reclame da chuva, enquanto você está no aconchego do ar condicionado, meu teto é uma lona."

"Vivo em São Paulo desde 1961 e afirmo que paulistas são muito solidários, mas não lutam por suas causas."

"Estou socialmente estragado."

"Tenho consciência da minha condição de marginalizado, a sociedade é quem não tem."

"Conheço obras de grandes escritores como Machado de Assis, Camões, Paulo Prado... e você?"

"Não sou escritor, nem poeta. Escrevo por necessidade. Meu trabalho não tem valor, pessoas só valorizam o que o dinheiro pode comprar."


Nenhum comentário:

Postar um comentário