sábado, 7 de maio de 2011

 Era festa da alegria
Tinha tanta poesia
Tinha mais animação
mais amor, mais emoção
Eu não sei se eu mudei
ou mudou meu São João

Vou passar o mês de junho
Nas ribeiras do sertão
Onde dizem que as fogueiras
Ainda aquecem o coração
Pra dizer com alegria
Mas chorando de saudade
Não mudei, nem São João
Quem mudou foi a cidade.

(Luiz Gonzaga)

São João é uma festa de tradição nordestina, tempo de juntar toda a família - em volta de mesas fartas de comidas típicas, de música boa, de arrasta-pé. Momentos em que preciosas lembranças me voltam...

São João, no meu tempo de infância, em cidades do interior da Bahia, tinha enormes fogueiras (que para mim, pareciam ser gigantescas): há lembranças de Jequié, com sua praça repleta de gente; depois, no sítio de meu avô, em Itaquara, onde meu pai abria uma mala de fogos com os quatro filhos em volta, ávidos por participar da divisão! Nossas roupas, de caipira, enfeitadas com os cachecóis de lã, em diferentes cores, tricotados por minha avó. Era um pra cada neto.

Mais lembranças d'outros tempos: das canjicas feitas por minha mãe, com todos da casa participando dos preparativos - as tarefas, das crianças, eram descascar e ajudar a debulhar os milhos.  A folia, regada ao som de músicas de Luiz Gonzaga, porque meu pai já amanhecia o dia  com os discos de vinil pra cima e pra baixo. Nesse clima, a radiola varava a noite tocando o tradicional repertório do Rei do baião. Ainda hoje, os xotes, os forrós e os baiões, no seu vozeirão, me são todos familiares!

No fim da tarde, prontos, a canjica e os variados bolos e biscoitinhos, os licores também apareciam, compondo uma mesa especial com flores coloridas e cheia de copinhos. A fogueira, lá na porta, imponente, esperando escurecer. E aí, era só esperar  a hora de os grupos de amigos e conhecidos começarem a peregrinar, de casa em casa, para comer e beber, pular fogueira, festejar o São João! Vinham improvisando quadrilhas pelas  ruas, animados por alguns tocadores de  sanfona, zabumba e triângulo. A  casa enchia de mais música e alegria - misturadas a um cheiro adocicado dos copinhos cheios de licor.

Esta é uma rica cultura que hoje tento perpetuar, passando as informações para as minhas filhas: digo-lhes que ainda há  lugares onde tudo isso acontece, daí a corrida de muitas pessoas para as cidades do interior, nesse período do ano. No aglomerado urbano das grandes capitais, infelizmente não se conseguem manter as tradições,  os tempos e os espaços são outros...

Mesmo nas cidadezinhas, hoje não se pode mais cultuar a fogueira, por razões óbvias. A beleza, dos fogos, está mais reservada para grandiosos eventos, embora estes ainda cheguem às mãos de algumas crianças, vigiadas pelos familiares. As músicas que fazem sucesso são, na sua maioria, "eletrônicas" e, praticamente, toda a festa se reduz a "forrós de camisa" -  festas organizadas em locais pré-determinados com ingressos-camisas vendidos antecipadamente.  Da tradição do velho Lua, vê-se pouco, quase sempre há bandas carnavalescas ou pagodeiros, travestidos de forrozeiros, nas programações. O momento é muito mais da "indústria do São João" faturar e apagar, cada vez mais, o brilho das festas de minha infância...

Quem, como eu, viveu momentos como os descritos acima, e ainda pode se deslocar para alguma cidade interiorana, espera o São João, praticamente o ano inteiro: a expectativa é chegar, reencontrar  familiares e amigos e, num clima mágico, sentir o friozinho bom dessa época, o cheirinho da canjica borbulhando na panela, enquanto escuta, de novo,  as velhas cantigas do mestre Gonzagão...

Jequié me aguarde!!

Liz Midlej

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