quinta-feira, 3 de março de 2011

Carnaval encantado perfeito demais

Eu voltei, talvez para ficar. Não, não é uma homenagem a qualquer canção de Roberto. Assim inicio este artigo para dizer que eu voltei, depois de 12 anos curtindo os encantos e os sabores da Baía de Todos os Santos, a brincar, pular, sorrir com ardor e amor no carnaval de Salvador.
Não, não voltei para ver os Novos Baianos “agonizarem” na avenida, como bem disse Pepeu, mas tão somente para matar a saudade que me invade.
Por tudo que vi e li nesses tempos de abstinência da festa da carne, não tive coragem de percorrer o corredor da Sé ao Campo Grande para ver o Gandhy.
Limitei-me ao circuito Barra – Ondina, que é chamado de Dodô, ou será que é Osmar? Agora me dou conta de que somente assim conseguiram separar, com pesar, o Dodô de Osmar.
Ao ver os trios, os ambulantes, os cordeiros, meu bolso remexido por uma mão desatenta do dono do alheio, os empurrões, os safanões, a confusão ... olha a faca!

Corre, corre sem lambretinha, pois a polícia vem aí... e como veio.

Ao ver um grupo de muquiranas extravasando ao som de Cláudia Leite (que de tanto balanço, não sei como ainda não coalhou), talvez com as “inocentes brincadeiras” liberando os desejos reprimidos por um ano inteiro...
Não sei o porquê, mas me lembro de uma velha canção. Já disse – não, não é de Roberto. É de Leo Jaime: Ô, ô, ô, ô, nada mudou.
Chame gente. Moraes Moreira voltou, oxente! Voltou? Com preta, pretinha e tudo. O trio e o repertório poderiam ser melhores. Mesmo assim valeu, ele voltou, assim como eu, para rever os amigos. Ao ver o povo oprimido espremido mais do que nas filas e favelas literalmente dançando, com ou sem cabelo como eu, no balanço do Chiclete: tu ta ta, tu tu ta ra ra... Como você não chegou em uma nova estação, Mel acabou. O Traz também não trouxe mais a massa. A roda não abriu, não enlargeceu.
Dizem que Marinez desistiu dos holofotes para dedicar sua vida a Jesus. Não, não é o da Luz. Ela virou evangélica. Não canta mais no carnaval. Isso é mau.
Agora, no silêncio da noite abro a janela do meu quarto, me debruço nela, mas não vejo a Banda Reflexus. A lua não é mais testemunha.
Sinto saudades dessa banda. Assim, sem saber, somente posso deixar chover, deixar molhar, não vou sofrer, não vou me abalar.
Ouvi até os acordes verdes do fricote debochado do seu Luiz. Se o estrelato maior é Beverly Hills, acho que ele não prefere mais o Rio.
Não vi Gerônimo e seu negão (Lá ele!). Tatau sem o Ará. Não vi Lazo Matumbi, também não precisei pedir para a linda morena dos cabelos prateados vir correndo me abraçar, me beijar. Já tenho a loura da minha vida, que pedi o pé e ela me deu a mão e tudo mais .... Porém, não tive coragem de pedir, ela não me daria um vale noite.
No ano retrasado, nos recantos de Caixa Pregos, ouvi que a moça era toda boa. Pensei que não haveria nada pior, mas, ó paí ó, foram buscar Dalila e novamente eles se superaram e, no psirico do parangolé, com harmonia no samba, o povo viu o lobo mau e a chapeuzinho caírem na rebolação. Viva a alegria, mas quanta decepção!
Neste ano que passa, para mim, e parece que somente para mim, Daniela encantou com seu andarilho. Essa foi, sem dúvida, a  melhor. Que bela canção! Não ganhou o troféu, mas entrou para a história, para a história do meu coração.
Essa canção, além de ser mais que mais uma canção, resume, em poucas estrofes, a alegria da fantasia, que é o carnaval da Bahia.
O canto dessa cidade ainda é dela. Acredito que sempre será.
Nossa! Como sorri ao ver a Rainha cantando e os rapazes, mais do que alegres, dançando como se fossem a bailarina da caixinha de música.
Eles estão cada vez mais soltos. Isso é bom. Com eles/elas é realmente na base do beijo. É na base do amor.
Para terminar, ai ai ai, fiquei arrepiado quando ouvi Perfeita Demais. Se não fosse o “mais” que o Brown sempre coloca nas suas criações – “peça caipirinha” – ela seria, sim, perfeita, mais do que perfeita, perfeita demais.
Por fim, independentemente de todas as críticas que possam advir, não foi à toa que até por aqui passou o Galo da Madrugada. Agora tenho certeza de que, de forma genial e sem igual, ainda fazemos, de forma perfeita e encantada, o melhor carnaval.

Assim, ano que vem acho que de novo voltarei ...  não, voltarei.

Inaldo Araújo
*Auditor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia. Professor universitário. Escritor.

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