segunda-feira, 7 de março de 2011


Belíssimo texto relembrando velhos carnavais...

"Hoje começa mais uma milionária temporada do carnaval da Bahia. Sem a intenção de ser saudosista, a festa dedicada a Momo vem sofrendo transformações a cada ano. Nada mais natural, já que o processo de mutação é inerente ao ser humano e ao mundo em geral.

No início dos anos sessenta o carnaval se resumia ao desfile das batucadas e clubes carnavalescos, onde a partir da Praça da Sé até o Campo Grande, desfilavam “Mercadores de Bagdá”, “Inocentes em Progresso”, “Filhos do Tororó”, “Filhos de Ghandi” numa profusão de fantasias e carros alegóricos com conotações de espetáculo. Tudo isso precedido pela irreverente “Mudança do Garcia” com sátiras e gozações para acontecimentos do momento. Festa mesmo era nos clubes com os bailes da Associação Atlética, do Iate Clube, do Cirex, Fantoches, Cruz Vermelha, para falar apenas de alguns. O grande e sonhado baile era o de segunda feira no Bahiano de Tênis. Quem não era sócio precisava “se virar” pra arrumar convite ou tentar “penetrar”. No Iate era relativamente fácil, caindo no porto, com um braço estendido pra não molhar a “mortalha” era ir nadando devagarzinho se aproximando do píer. Aí, com calma e muito cuidado, era só subir pelas laterais e correr pro banheiro. Algum tempo depois, seco e descontraído, adentrava o salão, já gingando, num arremedo de dança…

O carnaval se transforma mais uma vez e, ao som da Fobica de Osmar e depois, o Trio Elétrico da Fratelli Vitta. Dodô e Osmar e um mundo de instrumentos, tocando “ …Maravilha ou maravilhá, guaraná Fratelli Vitta é que é o guaraná…” abrindo alas para surgir logo após, a nova onda do carnaval: os blocos que preconizaram a privatização do carnaval da Bahia: “Os Corujas”, “Os Internacionais”, “Deixa a vida de Quelé”, “Apaches do Tororó”… Tudo isso mudou o conceito do carnaval de rua, dos saudosos blocos do Jacu, do Barão e Cada ano sai pior…

Em seguida com a proliferação dos trios elétricos “Marabá”, “Tapajós”, “Marajós, “Saborosa” “Jacaré”…, Moraes Moreira inova, colocando voz no Trio Elétrico e enloquecendo  a multidão que estava na Praça Municipal, bem em frente ao Elevador Lacerda, com a márcha Pombo Correio. Daí em diante, tendo Luiz Caldas, depois Caetano e Gil como poderosa alavanca, nasce o axé e o carnaval da Bahia ganha o mundo e perde a qualidade. Bel balançando a praça e o povão “metendo o cotovelo” descambando pra violência…
De repente, Waltinho Queiroz é quem tem razão: que saudade do Jacu…

Hoje, embora desfigurado do modelo original, o carnaval da Bahia ainda é um fenômeno de animação e alegria. Só que o que se constituía numa festa da espontaneidade, num programa de qualidade, tão barato quanto ir à praia, hoje só se diverte quem dispõe de recursos para integrar um bloco envolvido por cordas e seguranças ou tenha acesso a um dos luxuosos e caros camarotes; alguns, em hotéis, custando perto de dez mil reais pelos dias de reinado de Momo. Eles até colocam na propaganda: “All Inclusive” – ou seja, o folião pode comer, beber e dormir à vontade… Tempos da pós-modernidade…"

*Wilson Midlej - Jornalista, Editor do blog http://www.revistabahiaemfoco.com.br/ e meu pai :)

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