sexta-feira, 17 de julho de 2020

Ando devagar

(por Eduardo Gibelli)


Ando devagar
Porque já tive pressa
Pressa de ir embora
De largar tudo pra trás
Desistir da caminhada.
Mas hoje... Hoje, não.
Hoje ando que nem
Seriema no pasto
Devagarzinho
Medindo os passos
A coragem para ficar
E cantar a cada por do sol.

Ando devagar
No passo curto dos meus filhos
No passo lento dos meus pais
Porque se acelero o passo
Corro o risco de deixar os filhos pra trás
Não os ver crescer
Desabrochar, virar flor
E se apresso demais
Posso perder, quem sabe
A última primavera dos meus pais
Antes da chegada do outono da vida.

Ando devagar
Pra poder olhar por onde piso
E assim não esmagar nada
Nem ninguém por causa
Da minha desatenção
Ou minha forma ainda egoísta
De caminhar

Ando devagar
Para perceber o sabiá cantador
O canarinho afinado
O João-de-barro caprichoso
Que com o barro esquecido
No canto da estrada faz seu lar
Quero também ser assim
João-de-barro da vida
Que faz do barro
o que a enxurrada oferece.
As paredes de si mesmo
Forjada no capricho do trabalho
E no efeito do tempo.

Ando devagar
Pra pensar um pouquinho mais
Antes de agir
Escolher as palavras certas
Pra não machucar ninguém
Nem maltratar ninguém

Ando devagar, enfim
Pra ter tempo
Pra refletir numa ideia nova
Pra sondar um caminho novo
Pra aquietar a mim mesmo
Por alguns minutinhos
E poder escutar, quem sabe
No silêncio da caminhada
A voz que guia pro caminho reto
Ando devagar.

terça-feira, 26 de maio de 2020

São João sem sertão



A gente vive a fazer planos
Pra hoje, amanhã, outra estação
Vem o destino e muda tudo
Assim mesmo, de supetão
Mostra que não adianta
querer ser tão previdente
A vida quando quer trazer lição
muda o ritmo, muda o tom
tira a gente do salão.
Do São João, já me disseram:
Esse ano não tem mais, não!
🔥
Mas é de cortar o coração
Eu espero o ano todinho
Pra curtir o São João
Vem a vida muda o rumo
e me faz imposição
Esse ano não tem canjica
Nem pulo de fogueira
Nem dança de baião.
🔥
Mas destá que a vida
é longa
E verdadeira também é
a minha paixão
Eu sou nordestina
De esperar não canso, não
Paroano eu tiro um mês
Para curtir sanfona
Dançar forró
Vestir meu traje de chitão
🔥
Para assistir aos repentistas
Em shows de improvisação
Ver quadrilha na vila junina
Toda enfeitada de balão
Chamegar com o amor
E aos amigos dar as mãos
🔥
Assar milho na fogueira
Comer canjica e amendoim
Tomar licor, beber quentão
Assistir as cores dos foguetes
Espalhando no céu beleza
Explodindo a emoção
🔥
Quero rever minha cidade sol
Que nessa época do ano
Faz um friozinho de arrepiar
Da cabeça ao dedão
Quero amanhecer o dia
Com farto café da manhã
Que só se vê no sertão
Curtindo de painho a alegria
Ouvindo o som de Gonzagão
🔥
Fazer planos, meu Senhor,
Isso eu não deixo, não.
paroano eu largo tudo
Carrego só minha euforia
Meu sorriso e a animação
Não espere meu convite
Quem quiser que me siga
Vou curtir meu São João!


Liz Midlej

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Como seria?


Como seria se o coração tivesse voz?
Engoliria a palavra não dita
Ou desmancharia os nós?
Como seria?
Como seria se a vontade tivesse vez?
Faria bem-me-quer, mal-me-quer
Daria passagem ao sorriso?
Ou viveria engessada pelo medo, talvez?
Como seria?
Como seria se o homem perdesse sua altivez?
Viveria encabulado ou viveria mais leve
Celebrando sua vitoriosa viuvez?
Como seria?
Como seria se os sentimentos mesquinhos
Fossem exterminados por sua vil pequenez?
Haveria mais amor no mundo 
ou o ser humano não saberia viver 
sem fazer valer sua estupidez?
Como seria?
Como seria a natureza livre
Sem sofrer o medo da escassez?
Demoraria de se recompor 
Ou veria os pássaros cantarem hinos
As plantas voltarem ao verde
Os rios correrem com rapidez?
Como seria?
Nós rodamos o mundo
Buscando resposta 
Para conhecer o algoz
Encontramos a alma 
Gritando socorro
Quase sem voz
Padecendo suas dores
em sofrimento atroz
Pintamos de cinza o azul do céu
Sem conseguir ver beleza
no tempo que corre veloz
Tentamos em vão pedir licença
Para acabarmos com o frio que existe
Quando nos encontramos a sós.
A sós dentro de nós.

Liz Midlej


domingo, 26 de abril de 2020

Dor de borboleta


Tem dores que doem dentro e tem dores que doem fora. Para as dores que doem fora, unguento, chás, comprimidos. Para as dores que doem dentro, carinho, afago, abraço sem gemido. 

Tem dores que doem ontem e tem dores que doem agora. Há que aprender com a dor de dentro para curar a dor que transborda fora. Porque a dor de dentro cria feridas na alma que faz sangrar o olhar que chora, apaga o sorriso e traz vontade de ir embora. 

A dor de dentro deixa a parede de fora da nossa casa ser pintada com a tinta da tristeza que carrega nas mãos. Mas a dor grita de lá de dentro do quarto escuro. E toda vez que eu a nego, ela queima e incendeia o sim e o não. Incendeia o distanciamento. Incendeia do teto ao chão. Ela queima e grita e cansa e pede para ser descortinada, esmiuçada e transformada em pó para depois ser trancada no baú do que machucou o coração. 

A dor não quer se fazer pulsar em incômodo latente. A dor pede que a alma aprenda com os erros e siga em frente. Quer ser passageira. Passar ligeira e não ferir tanto a gente.

E a dor de dentro grita alto para se fazer escutar para que a sua chama não permita a alegria de fora calar. Porque vida é plenitude e não quer ser lembrança da vela da felicidade a se apagar. 

O segredo é aprender a pegar uma dose de amor para curar uma dor. Fazer poesia para que a cura chegue mais perto. Tratar essa dor com afeto. Aprender a viver de peito, sorriso e coração aberto. 

Um dia se percebe, com o remédio chamado amor, que a cura se revelou. A dor passou. E de etapa em etapa foi de larva a casulo. Virou bela borboleta que olhou o céu e bateu asas. Bateu as asas e voou. 

Liz Midlej

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Constru...IR




Tempos outros estão em curso. Tenho pensado no tenho feito até aqui. Tempo de refazer rotas. Tenho pensado que talvez não sejam as presenças e ausências materiais que me fazem ser o que sou. Não sou feliz pelo que tenho, nem pelo que me falta. Sou feliz ou não pelo que construí. Pelas escolhas.

Tive vontade de enxergar a minha construção. Sempre fui apaixonada por fotografias e pensei em fabricar um longo e simples varal de corda onde pendurei fotos que ia encontrando. Tarefa árdua nesses tempos digitais. Diversão garantida a cada uma que pendurava. Fui revivendo, contando histórias, desenhando sem muita lógica tudo o que mais precioso me habitava.

Quando terminei, olhei para aquele mosaico meio desengonçado e não vi mais as fotografias. Enxerguei imensos campos floridos, tempestades e dias ensolarados. Janelas abertas e portas fechadas. Pregos e martelos em caixa de ferramenta. Enxerguei ali, dividindo o mesmo espaço, a senhora tristeza de mãos dadas com a dona felicidade; A presença amada fazendo par com a ausência que foi sentida um dia; Vi o olhar que queria falar e se calou, de braços entrelaçados com o sorriso que disse tudo; O erro cometido, coitado! Estava com o olhar cabisbaixo pedindo perdão às juras de amor eterno. Até a decepção estava abraçada com a alegria do refazimento. Meus pedacinhos preciosos de chão que eu queria mostrar ao mundo, mas também esconder de mim mesma.

Por isso percebo que não importa onde estou. O que tenho. O que me falta. O que importa são as minhas histórias que estão penduradas no varal. Ao olhar para cada fotografia, vi experiências nas marcas da pele. Era o tempo que pensava estar engaiolado, mas abriu as asas e voou.
Percebi que não é a imagem que importa. É como me sinto comigo. É como me vejo e como aceito minhas falhas sem culpa e as vitórias sem vaidade. É aquilo que descortina, me dizendo que aprumei o leme e estou na direção certa.

O tempo passou no meu varal. Apagou um monte de bobagem e derrubou castelos de ilusões pelo caminho. Transformou trigo em pão. Passou feito vendaval, desmanchou quebra-cabeça e quando a poeira assentou, não consegui mais encaixar as peças no lugar de antes. Ficou tudo remendado. E tudo bem, também.

Hoje percebo que perdi tempo demais aprendendo a ter medo, construir muros, a querer parecer mais que ser. Agora caminho para fazer as próximas fotografias do meu varal serem mais reais. Menos estática. Mais vibrante. Ser espelho da realidade, sem enfeites, nem filtros. Para que a vida vibre mais que uma simples imagem, fazendo a história valer a pena.

Fazer Valer.
Sem pena.

Liz Midlej

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quarentena


Um dia. Uma semana. Um mês.
Como medir o tempo interno, o tempo subjetivo, dentro da gente?
Como medir o tempo que não é contabilizado em calendário?
Acordei meio sem saber a hora, sem saber se o dia era quarta - dia de agenda cheia de horários a cumprir - se era sábado, dia de sair para resolver o que não conseguia durante a semana ou se o dia era domingo e eu poderia dormir até mais tarde.
Depois de alguns minutos me dei conta de que não importaria tanto saber. Se o dia fosse quarta, sábado ou outro dia qualquer, uma série de acontecimentos que estariam determinados a seguirem seu fluxo, de repente, teriam que parar. Tudo estava diferente, em lento compasso. O tempo pedia calma, feito pausa de vírgula. A profecia contida numa música de Raul Seixas, outrora absurda, se fantasiou de realidade. A academia estava fechada. O salão também. A costureira, onde costumava ir para um conserto ou outro e ficava horas a escutar casos, agora não estaria mais lá. A escola, as ruas, os shoppings e as praças que outro dia, fervilhavam de pessoas a ir e vir, assistiam ao silêncio reinar absoluto.
E lembrei de quando eu era criança no sítio do meu avô. Havia um grande galinheiro onde as galinhas eram bem cuidadas por ele. Eu costumava ficar horas parada observando as galinhas no seu paciente processo de chocar seus ovos. Meu avô me ensinou que elas botavam um ovo por dia durante duas semanas e não deixavam o ninho nesse período, depois iniciavam o choco que durava três semanas e quase não se levantavam nem para comer. Aqueciam os ovos até que nasciam os pintinhos. Só se mexiam de vez em quando para movimentar os ovos, mudar de posição, para que os embriões se desenvolvessem normalmente.
Ficava a me perguntar como as galinhas aguentavam ficar tanto tempo ali, no mesmo lugar, no seu silêncio de espera.  Tinha certeza de que eu jamais aguentaria. E eis que o tempo me ensina que exata é a matemática, não as minhas certezas. Essas são questionáveis.
Sempre fui muito ativa. Meus dias sempre foram recheados de compromissos, trânsitos, horários, prazos, tarefas.  Descansar só à noite, já exaurida de tanto correr contra o relógio para dar conta da diversidade de ser mãe, mulher, dona de casa e trabalhadora, em cansativa conjuntura.
Mas com a necessidade de ficar em casa, pela adoção de uma prática de responsabilidade com o coletivo, me deparei com aquela minha certeza questionável. Passei a conjugar verbos que não eram percebidos na minha rotina: Perceber, observar, refletir, questionar, parar, conviver,
É certo que o trabalho em casa dobrou. Os cuidados com a higiene foram aprimorados e a convivência diária mais estreita, sem o escape da rua, deixou que surgissem fissuras nessa construção, que antes não eram percebidas. Mas os momentos agradáveis sobressaíram e, de repente, o simples fato de dividir uma pizza em um sábado à noite tornou-se uma festa.
Isso me remeteu à poética do silêncio. Ficando em silêncio, sou capaz de ouvir meus próprios pensamentos, meus defeitos, meus medos. Mas também me possibilitou a chance de ficar acordada, alerta, fazendo acordos comigo mesma de manter a calma para manter a saúde mental. Não se importar tanto com a vaidade. Desligar de notícias e sintonizar comigo mesma. Com a música. Com elementos antes não percebidos.
Aprendi que casa é templo sagrado. Ponto de partida do que sou e ponto de chegada de tudo o que construo lá fora. E que preciso ter cuidado com essa construção para que ela seja morada de boas energias. Aprendi que temos capacidade de adaptação infinita. Ao novo, ao velho, ao que vier. Que podemos tudo. Basta querermos.
E de aprendizado em aprendizado, faço agora como a galinha - paro, diminuo o ritmo, colocando a mim e meu núcleo familiar sob as asas da nossa casa, para que o novo período possa nascer nos encontrando muito mais unidos, fortalecidos e saudáveis. Para continuar.
Con
ti
nuar.
Liz Midlej

domingo, 21 de julho de 2019

D E T E R M I N A Ç Ã O


Para viver essa vida eu uso a razão
Traço objetivos e metas, 
Escuto a voz do coração
Sigo sempre a acreditar
Que meu caminho tem coragem
Força, vontade e determinação
Vivo a pensar que tudo vai dar certo
E peço a Deus sua proteção
O hoje é resposta do que valeu a pena
Hoje é sobre traduzir conquista com emoção
Mostra que todo esforço tem recompensa
Que vida não é pequena
Quando se põe nela alma e paixão
Um dia, sigo a passos pequenos 
No outro, caminho em amplidão
Por mais árdua que seja a estrada
Não carrego choro ou apreensão
Sinto que tenho tudo e sorrio:
Sou rio, não corro em vão!
Liz Midlej

Origem


Você sabe de onde venho? 
Venho de um lar, seu menino! 
Venho de um lar. 

Venho de lá de onde 
Nem tudo eram flores 
Havia amor, havia dores
Mas a gente sempre ria
E pintava a vida com mais cores.

A porta sempre aberta
Café e pão fresco
Para os amigos acolher. 
E nunca faltava quem chegasse
Os dias passavam macios
Os anos sempre a correr

Mas você sabe de onde venho?
Venho de um lar, seu moço!
De um lar.

Foram muitas casas e cidades
Foram muitas andanças e mudanças 
Mas nunca faltou festança
Tinha alegria na convivência
No abraçar, no brincar
E aguentamos firme 
Até quando o tempo 
Não era de muita bonança.

 Você sabe de onde venho?
Venho de um lar, meu Senhor!
Um lar.

As vezes tinha mato e água de rio
As vezes tinha cidades e prédios.
O sol chegava e partia
E a gente nunca morria de tédio.

Assim, não esqueço de onde venho.
E pra lá quero voltar.
Meu lugar perfumado de memórias 
Tem cachorros, passarinhos
Tem irmãos a me esperar.
Tem fogueira, tem música, tem luar.
Também tem bronca de mãe 
mandando estudar
Tem sermão de pai pra nos resguardar. 

Lar é diferente de casa
É tesouro mais que valioso
É referência, é porto seguro 
É laço invisível a nos guiar.

E assim vou a resposta aproveitar 
Para os meus pais reverenciar 
A eles que nunca deixaram nada faltar
me ensinaram, na convivência do lar, 
Que de onde eu venho
Ou para onde vou, 
O importante é amar.
amar, 
amar.

Liz Midlej